Mobilizar é preciso!

Tenho meu grupo político. Esse grupo vai me ajudar para minha eleição.” Conhece essa fala?

Será que o fato do político de mandato pensar ter pessoas em torno de seu mandato, indicadas ou contratadas por ele, ter uma “bolha” presente na maioria de seus eventos garante essa tranquilidade para que vença uma eleição?

Ser parte da máquina assegura que esses votos irão cair na conta no dia D?

Trabalho x Relacionamento ou trabalho gera relacionamento?

O mandato é, em minha opinião, baseado em dois pilares: trabalho x relacionamento.

O politico que trabalha muito, mas não encontra tempo ou vontade para ampliar seu relacionamento, sua base de cadastros, contando apenas com seu grupo político e terceirizando o relacionamento com o eleitor, certamente terá dificuldade.

Também o político “gente boa” que não tenha construído uma reputação estará fadado a não renovar o mandato ou terá muita dificuldade nessa renovação

Muitos colegas já escreveram acerca da construção de reputação. Dentre eles cito o artigo do professor Marcelo Vitorino, cartilha que sigo à risca (https://marketingpoliticohoje.com.br/redes-sociais-politico-eleitor-conteudo/)

Aqui, quero abordar uma outra visão não mais importante, mas sem medo de errar, que deve caminhar par e passo com a construção da reputação.

O treinamento constante da militância através de organização e planejamento deve fazer parte do processo de Comunicação dos profissionais que assessoram esses mandatários.

E podemos elencar e analisar, juntos, alguns pontos que exigem esse cuidado por parte dos profissionais que fazem a Comunicação Política.

Quando preciso pensar nisso?

Há no Brasil um costume de só se pensar em eleição, no período que a campanha eleitoral oficial se inicia. Com exceção do agente político e das pessoas que lidam diretamente com o mandato no dia a dia.

A Lei 13.165 de 2015, conhecida como Reforma Eleitoral, reduziu o tempo de campanha eleitoral de 90 para 45 dias. Também houve, ao longo dos últimos anos, o endurecimento dos Tribunais Eleitorais com a fiscalização de benefícios concedidos aos eleitores através de distribuição de bens ou serviços como centros sociais ou financiamento de eventos, por exemplo.

Também, antes da proibição do financiamento de campanha por pessoa jurídica, as lideranças políticas tinham mais poder de fogo, podemos dizer, no convencimento dos eleitores de seus redutos.

Por fim, as redes sociais tornaram, por óbvio, fonte de informação e pesquisa de figuras políticas. Levaram os representados para mais perto de seus representantes facilitando uma maior participação, acompanhamento e julgando o que o político faz, como  e quando faz, quase em tempo real.

Como manter o povo motivado? Como manter a chama da militância acesa?

Primeiramente reconhecendo que houve essa quebra de paradigma. Sem uma reputação o candidato não se mantém em pé. E sem uma militância on e off line o candidato não consegue que essa reputação, utilizando uma narrativa e um conteúdo segmentado, chegue ao público  certo.

Afinal, como costumo dizer em meus treinamentos: quem fala tudo para todo mundo, não fala nada para ninguém!

Política é grande parte emoção e o sentimento de disputa, de defesa de seu candidato durante as caminhadas tende a se encerrar no dia seguinte ao da votação.

Então, como corrigir o rumo dessa militância fazendo com que esteja no mesmo caminho que o do candidato? Como manter viva a empatia pelo seu representante em um país onde a classe política é tão desacreditada e, agora, tão polarizada?

Muitas vezes as lideranças querem ajudar o político e não sabem como ou ajudam de forma inadequada ou fora do que permite a legislação eleitoral.

“Já ganhei outras eleições sem isso tudo”

Primeiro passo é convencer o mandatário que um conjunto de ações somam-se ao processo de Comunicação Política: treinamento para que sua base consiga executar missões específicas, com prazo determinado, inimigo definido e meta a ser atingida.

Essas missões podem ser desde a captação de forma correta de cadastros ou organizar uma reunião com seu grupo de amigos com as informações e discurso acerca do mandato e do político de forma coordenada.

O prazo não deve ser longo demais para que fique esquecido e acomodado dentro de alguma gaveta mental e que  a militância pense: “mais perto penso nisso”.

Também não deve ser curto demais para que ele desanime se achando incapaz de cumprir.

O inimigo não precisa ser um adversário político, uma pessoa, mas o cenário, a situação de sua região, por exemplo. O importante é que acenda o sentimento de defesa, de pertencimento do mandato.

A meta deve ser tangível, mas algo que inspire certa competição entre os militantes. Nós, seres humanos somos movidos por querer superar uma situação ou alguém de nosso círculo. Principalmente no caso do viés político onde a vaidade pesa bastante. E é isso, sim. Exacerbar as qualidades daquele que consegue concluir a missão para que os demais sintam que é preciso se esforçar para ocupar seu espaço.

As pessoas tendem a ficar amigas do cargo

Bernard Mandeville, em seu livro A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos(*) aborda a questão dos defeitos e corrupções apontados em diversas profissões e examina de que forma esses “vícios, de cada pessoa em particular, por uma hábil destreza, são postos a serviço da grandiosidade e da felicidade mundana de todos”.

“[O]s que examinam a natureza do homem, dispensando a arte e a educação, podem observar que aquilo que o torna um animal sociável consiste não no seu desejo de companhia, bondade, piedade, afabilidade e outras encantos de bela aparência, mas sim no fato de que as suas qualidades mais vis e odiosas são as aptidões mais necessárias para ajustá-lo nas maiores e, conforme anda o mundo, nas mais felizes e prósperas sociedades”.

Para ser um agente político a corrupção, o mal feito, a falta de caráter deve estar bem longe deste. Ao passo que a solidariedade e o reconhecimento da dor alheia deveriam nortear seu comportamento.

Porém, difícil é encontrar entre os que cercam o mundo político alguém despido de uma certa dose de vaidade e gosto pelo poder. Nem que seja o de obter um simples crachá que lhe dê passe livre para um estacionamento público ou privado.

Não quero aqui incentivar nenhum comportamento viciado ou de soberba, mas o de aproveitar a natureza e as aptidões da militância convertendo em trabalho para aumentar a base de relacionamento entre o político e cidadão (eleitor) atraindo, mobilizando e convertendo a possibilidade de vitória para outro cargo eletivo.

 

*Título: A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos

Autor: Bernard Mandeville

Tradução: Bruno Costa Simões

Editora da Unesp

Noeli Becker

Noeli Becker

Noeli Becker, jornalista com especialização em Comunicação Política. Chefe de gabinete na Câmara dos Deputados; assessora legislativa na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ. Experiência em assessoria de comunicação de imprensa, assessoria de comunicação, gestão de crises; coordenação de campanhas eleitorais.

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