Desde que os Canais de WhatsApp chegaram ao Brasil, em 2023, venho acompanhando como essa ferramenta passou a ocupar um espaço cada vez mais importante na comunicação política. Nas eleições de 2018, a grande discussão estava concentrada nos grupos, nas listas de transmissão e na circulação de mensagens entre contatos. Agora, no segundo turno presidencial de 2026, os canais ganharam uma dimensão que merece atenção: campanhas e lideranças descobriram como reunir milhões de seguidores em um único espaço e transformar essa audiência em uma estrutura de mobilização.
Os números ajudam a entender o tamanho dessa mudança. O canal Exército do Lula ultrapassou 7 milhões de seguidores, enquanto a Tropa do Flávio chegou à marca de 2 milhões. Mais do que o tamanho das audiências, o que chama a atenção é a maneira como esses espaços vêm sendo utilizados. Além de publicar conteúdos, os administradores convocam apoiadores para compartilhar mensagens, movimentar assuntos nas redes sociais e participar de ações coordenadas. O canal deixa de funcionar apenas como um lugar para receber informações e passa a ser também um ponto de partida para outras iniciativas digitais.
Essa é uma diferença importante em relação aos grupos tradicionais. Nos canais, a comunicação parte de uma fonte central e chega a uma audiência numerosa, sem depender de uma conversa coletiva entre todos os participantes. Isso facilita a distribuição de conteúdos e a organização de uma narrativa. Mas o alcance, por si só, não garante mobilização. O desafio continua sendo fazer com que as pessoas não apenas recebam uma mensagem, mas encontrem motivos para compartilhá-la e levá-la a outros espaços, inclusive nas conversas privadas e nas redes de relacionamento que já fazem parte da sua rotina.
É justamente aí que está a força estratégica dos canais. Uma publicação pode alcançar milhões de seguidores e terminar ali mesmo. Outra pode ser compartilhada por uma parcela menor da audiência e continuar circulando entre amigos, familiares e conhecidos, chegando a pessoas que nunca seguiram aquele canal. A diferença está na capacidade de transformar uma audiência em uma rede de multiplicadores. Na comunicação política, não basta olhar para o número de inscritos: é preciso entender o que acontece a partir deles.
Quando a mobilização entra na discussão da Justiça Eleitoral
O crescimento dessas estruturas também trouxe novas questões para a Justiça Eleitoral. Nos últimos dias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a discutir os limites da atuação de canais políticos de grande alcance, em meio à disputa envolvendo o Exército do Lula e a Tropa do Flávio. Uma minuta de resolução elaborada pelo ministro André Mendonça propôs restringir canais de natureza político-eleitoral com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação do segundo turno.
A proposta gerou uma discussão importante sobre a relação entre o combate à desinformação, a liberdade de expressão e a segurança jurídica. De um lado, existe a preocupação com a circulação de conteúdos ilícitos em um período no qual há pouco tempo para contestação e resposta. De outro, uma restrição ampla a canais políticos levanta dúvidas sobre os critérios utilizados, a proporcionalidade da medida e os efeitos de uma mudança tão próxima da votação.
Na quarta-feira, 21 de outubro, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, decidiu não levar a proposta adiante para o segundo turno, previsto para 25 de outubro. Portanto, não houve a adoção daquela restrição geral aos canais com mais de 200 mil seguidores. O episódio, porém, deixa uma questão que vai além desta eleição: como regular ferramentas de comunicação que mudam rapidamente e permitem que uma mensagem alcance milhões de pessoas em pouco tempo?
Na minha avaliação, essa discussão precisa considerar as diferenças entre os formatos e os usos dessas ferramentas. Um canal com milhões de seguidores tem uma capacidade de distribuição muito diferente daquela de um grupo pequeno de apoiadores. Ao mesmo tempo, o tamanho da audiência não deve ser tratado, isoladamente, como prova de irregularidade. É necessário observar o conteúdo publicado, a forma de organização da comunicação e a existência de práticas que violem as regras eleitorais. A resposta regulatória precisa enfrentar os problemas reais sem transformar o alcance, por si só, em motivo para restringir a comunicação.
A ferramenta muda, mas a lógica da rede permanece
A experiência de diferentes eleições mostra que a tecnologia disponível influencia a maneira como as campanhas se organizam, mas não elimina os fundamentos da mobilização. Os canais oferecem escala e centralização; os grupos permitem organizar públicos menores; e as conversas individuais ajudam a construir proximidade e confiança. Uma estratégia consistente entende como essas possibilidades se complementam, em vez de apostar todas as fichas em uma única ferramenta.
É por isso que não vejo os canais como uma solução isolada. Reunir milhões de seguidores é um feito de distribuição, mas transformar essa audiência em participação exige método, conteúdo relevante e uma compreensão real do comportamento das pessoas. Sem isso, a campanha pode acumular números expressivos e ainda assim ter dificuldade para fazer sua mensagem circular para além de quem já está convencido.
O que estamos vendo em 2026 é uma nova etapa da comunicação política pelo WhatsApp. A disputa não acontece apenas para conquistar seguidores, mas também para mobilizar essas pessoas e influenciar o que circula em outros ambientes digitais. Ao mesmo tempo, a discussão no TSE mostra que as instituições precisam encontrar formas de acompanhar essa transformação sem recorrer a soluções precipitadas ou desproporcionais.
A tecnologia continuará mudando a cada eleição. O trabalho estratégico será entender como cada ferramenta se encaixa na construção de uma rede de relacionamento e mobilização. Porque, no fim, o canal pode reunir milhões de pessoas, mas são elas que decidem se uma mensagem vai parar na tela ou se continuará circulando. A diferença entre ter audiência e mobilizar está justamente no que acontece depois que alguém recebe o conteúdo.