Um dos erros mais comuns que vejo em consultorias é a ansiedade de colocar o bloco na rua antes de saber qual música vai tocar. No ambiente eleitoral, isso se traduz em começar a produzir vídeos, cards e textos sem ter um posicionamento político claro. O resultado costuma ser uma comunicação genérica, que não conecta com as pessoas e, pior, gasta recursos preciosos de uma pré-campanha. Antes de abrir a boca ou postar nas redes sociais, é fundamental entender que a comunicação é apenas a ponta do iceberg; a estratégia é o que sustenta tudo o que está embaixo da água.
Para profissionais de comunicação política e candidatos, entender essa lógica é vital. O eleitor não compra apenas uma promessa; ele compra uma identidade, uma história e uma visão de mundo que precisam ser coerentes. Se você tenta agradar a todos, acaba não sendo relevante para ninguém. Definir o posicionamento político exige olhar para dentro (quem é o candidato) e para fora (o que o eleitor deseja), criando um ponto de intercessão que seja verdadeiro e vendável. Sem essa etapa, sua estratégia de marketing político será apenas um amontoado de palpites, e, vamos ser sinceros: em eleição, palpiteiro é o que não falta.
O que é posicionamento político na prática?
Muita gente confunde posicionamento com ideologia partidária. “Ah, eu sou de esquerda” ou “sou de direita”. Isso é muito pouco. O posicionamento político é a soma da sua biografia, das suas entregas, dos seus valores e da forma como você enxerga os problemas da cidade ou do estado. É a “marca” que você deixa na mente do eleitor.
Imagine que você vai ao mercado comprar um refrigerante. Você não escolhe aleatoriamente; você escolhe aquele que promete o sabor que você gosta ou a sensação que você quer ter. Na política, guardadas as devidas proporções, o processo é similar. O eleitor precisa olhar para você e entender, em poucos segundos, o que você representa. Você é o candidato da renovação? Da experiência administrativa? Da segurança pública? Da defesa dos animais? Se você não definir isso, o seu adversário definirá por você — e pode ter certeza de que ele não será generoso.
Olhe para o retrovisor: a biografia não mente
Não dá para inventar um personagem. A primeira etapa para definir um bom posicionamento é fazer um mergulho na história do candidato. O que ele já fez? De onde ele veio? Quais bandeiras ele sempre defendeu? A coerência é a moeda mais valiosa na comunicação política moderna.
Se um político passou 20 anos no serviço público burocrático, dificilmente ele conseguirá sustentar um posicionamento de “outsider” ou de “antipolítica”. A narrativa precisa ter lastro na realidade. Pegue o currículo, as votações passadas (se houver), os projetos de lei e as entrevistas antigas. O posicionamento nasce do que já existe, lapidado para atender aos anseios atuais da população.
Segmente o público: quem você quer representar?
Aqui está uma verdade dura: você não precisa do voto de todo mundo para ser eleito, você precisa do voto suficiente. Tentar falar com todos os grupos ao mesmo tempo deixa sua mensagem diluída. Para definir seu posicionamento, você precisa escolher suas batalhas.
Quem são as pessoas que naturalmente se identificam com a sua história? São os jovens universitários? Os comerciantes do centro? As mães atípicas? Os servidores públicos? Ao definir seus públicos prioritários, você ajusta o tom de voz e os temas da sua comunicação. O posicionamento deve ser uma resposta aos problemas desse grupo específico. Quando você tenta abraçar o mundo, seus braços geralmente não alcançam nada.
A importância da pesquisa na definição da estratégia
Não confie apenas na intuição ou no que os assessores dizem no “chá das cinco”. Dados são fundamentais. Pesquisas qualitativas ajudam a entender como o eleitor enxerga o candidato hoje e quais são as demandas reprimidas da sociedade. Às vezes, o candidato acha que seu ponto forte é a oratória, mas a pesquisa mostra que o eleitor o valoriza pela capacidade de ouvir.
Ferramentas digitais como o Google Trends também são aliadas para entender o que está na pauta do dia. Cruzar a oferta (o que o candidato é) com a demanda (o que o eleitor quer) é o segredo para um posicionamento sólido.
Consistência e repetição
Depois de definir “quem você é” e “para quem você fala”, o desafio é manter a disciplina. Posicionamento exige repetição. Não adianta falar de saúde na segunda-feira, de buraco de rua na terça e de geopolítica internacional na quarta. O eleitor precisa associar seu nome a temas específicos.
A comunicação deve martelar os pilares do posicionamento escolhido em todos os canais: nas redes sociais, nos discursos, nas entrevistas e no material gráfico. A consistência gera confiança, e confiança gera voto.
Conclusão: o mapa antes da viagem
Definir o posicionamento político é como desenhar o mapa antes de começar a viagem. Sem ele, você pode até andar rápido, mas corre o risco de chegar no lugar errado. Lembre-se sempre de que a comunicação é meio, não fim. Ela serve para transportar o seu posicionamento até a mente e o coração do eleitor.
Para resumir, fique atento a estes pontos:
- Não comece a comunicar sem saber quem você é politicamente.
- Sua história de vida é a base do seu posicionamento.
- Escolha seus públicos e fale a língua deles.
- Use dados e pesquisas para validar sua estratégia.
- Seja consistente e repetitivo nos temas chave.
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Um abraço e bom trabalho!




